Cinema

CRÍTICA: 'Coringa' - Um reflexo da sociedade moderna

03 de Outubro de 2019 -Redação
[CRÍTICA: 'Coringa' - Um reflexo da sociedade moderna]

Longa estrelado por Joaquim Phoenix vai além de mais um filme de vilão como protagonista

Se eu te disser que prefiro os vilões aos mocinhos você pode até estranhar, mas eu te explico o porquê. Em um período cinematográfico em que os vilões estão sendo protagonistas das histórias, como em Esquadrão Suicída e Malévola, este ano de 2019 nos trouxe uma outra pérola do mal: CORINGA. Mas se você acha que este é um filme como outro qualquer sobre vilões ou super heróis está enganado. Apesar do personagem ser o tão conhecido inimigo do Batman, esta parte da história acontece antes mesmo do herói existir e Bruce Wayne é só uma criança. Isso porque o diretor Todd Phillips declarou não desejar fazer alusão a outros personagens dos quadrinhos, rompendo assim esta linha do tempo, tornando o enredo uma narrativa exclusiva sobre o personagem de Arthur Fleck, um homem com distúrbios psicológicos, em tratamento psiquiátrico, que trabalha como palhaço e sonha em se tornar comediante de StandUp.

E é sobre esta parte que vamos nos debruçar com mais atenção: vivendo em uma sociedade caótica, com inúmeros problemas políticos e sociais, em uma cidade infestada de ratos causada por greve dos garis, Arthur Fleck ainda não se denominava Coringa. Temos a oportunidade de mergulhar em sua mente insana e até experimentar um pouco de sua loucura, ao vermos cenas de suas ilusões sem se dar conta que se tratam de suas paranoias até que elas sejam reveladas.

Pobre, cuidando de sua mãe adoentada que escreve cartas esperançosas ao rico empresário Thomas Wayne (o pai de quem ainda virá a ser o Batman) e que nunca os responde, morando em um apartamento velho e obscuro no subúrbio da famosa Gotham City, o personagem vai sendo construído enquanto tudo o leva a mergulhar em sua psicopatia.

Sobre os aspectos técnicos do filme cabe mencionar que a fotografia é impecável. Cenas memoráveis, com cores frias que dialogam do início ao fim e dão ao filme um tom caótico e introspectivo, aproveitando as sombras e nos envolvendo ainda mais no caos daquele cenário deprimente.

E quando tudo parece estar desmoronando para Arthur, quanto mais trágica sua vida vai se tornando, mais sua outra face vai ganhando força e o palhaço de cabelo verde mais conhecido do mundo surge.

E é aí que as histórias dos vilões me parecem as mais interessantes, por serem intrigantes. Todos passamos por traumas, tristezas, decepções, angústias... mas o que difere os vilões das demais pessoas é que eles não conseguem controlar seus impulsos emocionais e psicológicos e são tomados pela psicopatia do mal. Um verdadeiro vilão sempre tem um discurso que justifica seu ato de crueldade. Veja Thanos, que dizimou metade da vida no universo porque queria dar aos que ficassem uma vida melhor. O Rei Orm e irmão de Aquaman não aceitava sofrer as consequências da destruição dos oceanos pelos humanos e queria mostrar a superioridade do seu povo. As causas são nobres, mas os meios de consegui-los é o que os tornam psicopatas, mentes envolvidas em um distúrbio que os impede de medir as consequências dos seus atos.

Assista ao telejornal e você verá diariamente notícias sobre assassinatos, roubos, estupros e muitas outras tragédias. Os vilões do mundo real estão à solta. Suas mentes insanas estão mergulhadas num caos social e emocional que os faz perder o controle.

Coringa é um filme com censura para menores de 18 anos nos Estados Unidos e 16 no Brasil. Um filme que parece um culto aos psicopatas assassinos e que parece romantizar seus atos de crueldade. Que parece um incentivo à romper os limites do sendo comum, na verdade é uma amostra de como uma mente insana pode lidar com as adversidades e cuidar da saúde mental é uma questão de saúde pública coletiva.

Os atos de crueldade que vemos diariamente são epidemias de psicopatia, de distúrbios psicológicos e como doença precisariam ser combatidas. O problema é que nossa medicina só cura com comprimidos e Coringa tomava 7 comprimidos por dia, mas isso não o impediu de se tornar um mártir do mal e levar consigo uma legião de seguidores.

Coringa é nossa sociedade moderna. Apenas assistam.

(Ah, e pra finalizar... aguardem que no Oscar este filme há de ser muito mencionado, em especial Joaquim Phoenix).

NOTA (1 a 5):

5.0

Por Raí Silva

 

CORINGA
Data de lançamento: 3 de outubro de 2019 (2h 02min)
Direção: Todd Phillips

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